Ele nasceu em Salvador, e cresceu pelos bairros de Cosme de Farias, Liberdade e Retiro. Da infância, as lembranças não são as melhores, pois aos sete anos perdeu a mãe, dona Domingas. Ainda menino, viu o pai, José Lourenço, perder o principal sustento da família, pois a antiga feira de Água de Meninos, na qual possuía uma barraca, pegou fogo. Penúltimo dos seis filhos, Eduardo, que com 2,02m de altura, tem o carinhoso apelido de Neném, ajudou como pode no sustento da casa, muitas vezes “fazendo bico” como guia turístico em Salvador.
Quando o pai faleceu, Neném já estava com 20 anos. Aos 22, ingressou no Polo Petroquímico de Camaçari, como auxiliar de produção, de onde se desligou em 1989, como encarregado de embarque. Depois de sete meses sem trabalhar, teve a oportunidade de fazer um curso de segurança pessoal na França. Já de volta, em 1991, foi contratado para trabalhar na segurança da Câmara Municipal de Camaçari que, na época, ainda funcionava no Centro da cidade, próximo a linha do trem, onde hoje está instalada a Secretaria de Cultura. A princípio, a proposta não lhe pareceu muito interessante, já que preferia um trabalho que possibilitasse viajar e obter novos conhecimentos, mas como estava sem trabalhar, foi com a intenção de “passar uma maré” (que acabou virando, no bom sentido, um Tsunami de mais de 20 anos).
Presidida por Rui Magno, oposição e situação protagonizavam grandes embates na Câmara, mas “seu” Neném não contava conversa: estava ali para garantir a paz. “Com minha experiência nesses cursos de segurança, eu cheguei para apaziguar. O treinamento, e acho até bom você colocar isso aí (e aqui está), é fundamental porque deixa a gente preparado para lidar com diversas situações. Se alguém vem aqui chateado, zangado, temos que usar o diálogo. Eu tenho duas décadas aqui e nunca precisei usar a força com ninguém”, diz, orgulhoso. “Agora em março faço 21 anos de Câmara, já passaram aqui presidentes de vários partidos, mas eu me mantenho porque, para mim, o profissionalismo está acima de tudo".
Além do trabalho, outro motivo de grande felicidade para ele, é a família. Tem três filhos: Sidney (o pingo), de 30 anos, Abidjan - a filha que ganhou nome de cidade africana por ter nascido em 88, quando a abolição da escravatura no Brasil completou 100 anos- e Caroline, que completará a maior idade em maio próximo. Casar, casar, ele não casou oficialmente, mas morou com as mães dos filhos (que são irmãos apenas por parte de pai). “Sou músico, saio no Gandhy há mais de 25 anos, não era fácil ficar comigo...”, diz, mudando de assunto. Mas faz questão de ressaltar que tem uma ótima relação com todas as ex-mulheres, pois, prioritariamente, vem o bem estar dos filhos. “Quero o melhor para eles”, ressalta, fazendo uma pausa antes da próxima declaração:
“Amo muito meus filhos e digo isso sempre, porque a gente tem essa mania de só dizer as coisas quando está no leito de um hospital. Se houver vida após a morte, eu quero ser de novo pai deles. Meus filhos são verdadeiras bênçãos. Quando dá, eu junto os três, saímos todos, é uma alegria”, diz, emocionado.
Dentre as características de seu Neném, estão o otimismo e a alegria de viver. “É uma raridade eu me aborrecer. Procuro ver sempre o lado bom, não fico olhando para o lado ruim. A gente tem o privilégio de ter um emprego, ter pessoas que fazem questão de estar perto. Pior é doença, né?!”. Para derrubar o negão, só a falta de caráter: “O que me deixa triste é o mau-caratismo, não sei ser falso. Se eu não gosto de uma pessoa, não vou sentar com ela numa mesa. Tem gente que senta na falsidade, mas eu não consigo ser assim”.
A política da boa vizinhança também faz parte do dia a dia dele. “Eu tenho uma filosofia de vida: se coloque no lugar das pessoas que raramente terá problemas. Se você ligar um som alto às 22h, vai incomodar seu vizinho. Amanhã ou depois, se ele fizer a mesma coisa, você não vai gostar”.
Mesmo com o otimismo, ele revela alguns dos momentos de maior tristeza em sua vida: a morte dos pais, de dois irmãos, e do sobrinho Djalma, que faleceu no acidente da Fonte Nova, em 2007. “Você perder um ente querido é duro, né? A pessoa tem que ser forte”. Natal também é um motivo para pequena tristeza. ”Eu não gosto porque nunca tive o privilégio de sentar em uma mesa com aquela família toda reunida. Nessas horas a gente fica um pouco triste, mas depois passa”.
Quando não está trabalhando, envolvido em ações do Movimento Negro ou na companhia dos filhos e amigos, seu Neném gosta de ir à praia, visitar pessoas próximas, ouvir música (de Benito de Paula à Exaltasamba) e também gosta de ler porque “a gente que é comunicativo, tem que ter assunto”.
Quando perguntado sobre os momentos mais marcantes de sua vida, o nascimento dos filhos ganha em disparado. Da infância difícil, como já contado aqui, não tem tantas lembranças boas, mas também não guarda traumas. “Hoje em dia eu agradeço porque quando você vê a dificuldade de perto, amadurece. Eu não dou R$400 / R$500 num tênis porque não vejo necessidade. Valorizo muito meu esforço. Tem gente que fala assim: R$ 10 não é nada. Mas para você ganhar R$ 10 é um duro danado”.
Com mais de 30 anos de serviços prestados (entre o Polo e a Câmara), esse Neném ainda não liga muito quando o assunto é aposentadoria. “Não chegou o momento, e não fico pensando nisso; mas quando acontecer, eu sei que não vou aquietar. Gosto de trabalhar, me sentir útil. Quero fazer um trabalho voluntário, ajudar as pessoas”.
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Texto escrito por mim, originalmente publicado no site Bahia Destaque. Vai lá: http://www.bahiadestaque.com.br/